Como lidar com os efeitos da altitude em Cusco

Mais cedo ou mais tarde em Cusco sentimos a altitude. Estamos 3.400 metros acima do nível do mar, e a pressão parcial do oxigênio, ou seja, a disponibilidade do mesmo para a nossa respiração é menor do que estamos acostumados no Brasil.

Alguns não sentem quase nada, e outros sempre sofrem um pouco (como eu). Os sintomas mais comuns do mal de altura são dor de cabeça, falta de ar, fadiga, transtornos digestivos e do sono, e falta de apetite. Para a maioria dos turistas isso pode atrapalhar bastante a viagem. Quem der uma olhadinha no blog logo vai perceber que eu sou apaixonada pela região da Cordilheira dos Andes, e venho sempre que dá. Eu não sou médica, então o que estou fazendo aqui é dividir com vocês minha experiência pessoal, o que me ajuda a sentir menos mal.

1 – Suba gradualmente (se possível)

Se a sua viagem inclui outros destinos no Peru, porque não deixar os mais altos para o final? Arequipa, por exemplo, está a 2300 metros de altitude, e é uma cidade linda. Além disso, vai ver que deixar o melhor para o final vale a pena! Bom, mas nem todo mundo planejou passar por Arequipa e muitos vão chegar de avião diretamente a Cusco. Sendo assim, pule para a próxima dica.

2 – Faça tudo devagar

Os sintomas nem sempre aparecem ao sair do avião. Pode ser que nos primeiros momentos você não sinta nada. Mas vai por mim, isso não significa que você está imune. Algumas pessoas só sentem algumas horas mais tarde, e o mal de altitude não é nada gentil nesses casos.

Assim, reserve o primeiro dia para descansar no hotel, ou fazer uma caminhada breve e lenta pela cidade. Cusco é a Ouro Preto do Peru, subir e descer ladeiras. Preserve-se. Essa dica também vale para os demais dias, embora pouco a pouco vai sentir que pode ir aumentando o ritmo.

3 – Coma pouco e leve

Um dos sintomas do mal de altitude é a falta de apetite, então esta dica não vai ser difícil de seguir. A digestão é mais difícil na altitude, e comer muito pode causar mal estar. Quando comer, prefira fazer refeições leves, em porções pequenas.

Também é bom dar preferência a frutas, vegetais e alimentos ricos em carboidratos. Isso porque com a falta de oxigênio o corpo consome mais rápido as reservas de açúcar. Quando estas acabam, começa o mal estar.

Causo: Em minha primeira viagem aos Andes eu não segui as dicas 2 e 3, e depois de subir uma montanha para ver o por do sol desci relativamente rápido e fui jantar. Comi carne vermelha em uma porção bem grande (estava uma delícia).

Resultado: a noite comecei a passar mal, e me senti como se fosse morrer. Vomitei diversas vezes ao longo da noite e no dia seguinte eu fiquei prostrada no quarto de hotel, não tinha forças para me mover, nem para beber água. No segundo dia eu ainda não me sentia bem para sair, mas ao menos consegui me hidratar com chá de coca. Perdi dois dias da viagem, e ainda não me sentia perfeitamente bem até o quinto dia depois do ocorrido.

4 – Hidrate-se para além do costume

Como há menos oxigênio disponível para nossa respiração, respiramos com mais frequência e perdemos mais vapor de água. Assim, beba bastante água, mesmo antes de se sentir mal. Isso é importante em Cusco também porque é uma cidade bem seca. Já vi recomendações de tomar de 4 a 5 litros de água por dia. Mesmo que não chegue a este ponto, tome isso como referência de que é bom tomar uma quantidade maior do que toma no Brasil.

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5 – Evite álcool e fumo

Todos sabemos que o álcool nos desidrata e causa mal estar. Mesma coisa para o fumo. Melhor evitar, ou pelo menos reduzir nos primeiros dias para não maltratar o seu corpo além do que ele já está sofrendo com a altitude. Eu sei que Cusco é uma cidade muito divertida, com opções noturnas que você quer, nem deve, perder. Mas, pense assim, comece pegando leve. A menos que não se importe em perder o dia seguinte de passeios se sentindo mal.

6 – Abuse do Chá de Coca

No Brasil temos preconceito com o chá de coca, por imaginar que é alguma bebida entorpecente, ou que pode vir a causar dependência. Na verdade a concentração de cocaína em uma folha de coca varia de 0,1-0,8%, concentração muito abaixo do considerado tóxico ou que cause qualquer tipo de dependência.

É um chá como outro qualquer, com algumas propriedades que ajudam a lidar com o mal de altura. A coca ajuda na absorção de oxigênio pelo sangue, é digestivo e estimulante – como um café ou uma coca-cola, e estes dois são desaconselháveis em altitude. A folha tem uma importância cultural, ritual e religiosa muito grande para os povos andinos. Assim, além de ajudar a driblar os efeitos da altitude, é uma inserção na cultura e no cotidiano de Cusco.

A coca pode ser consumida mascando as folhas, em chá com as folhas ou em sachês iguais aos que estamos acostumados, e em balas (caramelos). Mascar é a forma mais comum entre os camponeses, mas pode ser estranho e difícil para nós, já que temos que tomar o cuidado de sugar só o suco, sem engolir as folhas.

Aqui tenha cuidado em respeitar a cultura, principalmente se estiver visitando uma comunidade rural. É considerado desrespeito jogar a coca mascada fora. O que eles fazem é colocar na terra e cobri-la com pedras fazendo uma oração. Observe o que os demais estão fazendo e siga. Evite tratar a coca de maneira desrespeitosa e, se não quiser, seja gentil ao recusar.

7 – Pílulas de Soroche

Eu não recomendo tomar essas pílulas sem consultar um médico. Qualquer auto-medicacao é arriscada. Mas, é uma opção. Parece que elas são cafeína e aspirina, que “combate” a fadiga e o desconforto (Ainda fico com o chá de coca que dá no mesmo). Uma coisa sobre as pílulas para Soroche: tome antes de se sentir mal. Depois que já estiver com sintomas fortes não vai fazer efeito.

8 – Bombinhas de oxigênio

Caso nenhuma das tentativas anteriores funcione, você pode recorrer a bombinhas de oxigênio disponíveis para comprar em farmácias e mercadinhos de Cusco. Alguns hotéis também tem a disposição e você pode solicitar caso se sinta mal. No aeroporto também esta disponível.

Arquitetura mestiça em Cusco

Arquitetura mestiça em Cusco

 

9 – Respeite seu corpo

E por último, mas não menos importante, respeite seu corpo! Não vale a pena querer bancar o valentão (sim, cutucada nos rapazes) durante a viagem. Melhor se poupar e garantir que vai curtir a viagem. Há um ditado entre os povos da altitude que diz “beba antes de ter sede, coma antes de ter fome, agasalhe-se antes de sentir frio, e descanse antes do esgotamento”. Se eles estão mais acostumados a viver aqui, melhor escutar, né?

Eu já vivi e escutei muitos casos de quem achava que estava em condições e decidiu fazer uma subida em uma trilha, por exemplo, correndo. Em todos os casos passaram muito mal e tiveram que ser levados ao hospital, ou ao cuidado de curandeiros (em caso de estar longe de qualquer cidade). Desnecessário, verdade?

Leia mais sobre o Peru:

Dica para aproveitar melhor sua visita a Machu Picchu

Nova fase da minha aventura: um ano em Cusco

10 comentários

  1. Rosely Alves de Oliveira Cardoso 21 agosto, 2016 at 04:52 Responder

    Sensacional. Td, absolutamente tudo o que foi dito é a mais pura verdade. Ter cautela é a melhor das dicas .Estou em Cuzcu a uma semana e passei pelas experiênciasuas descritas com a excessão da carne vermelha , mas, quanto a fadiga, cefaléia, dispnéia,

  2. Rosely Alves de Oliveira Cardoso 21 agosto, 2016 at 05:01 Responder

    Sensacional. Td, absolutamente tudo o que foi dito é a mais pura verdade. Ter cautela é a melhor das dicas .Estou em Cuzcu a uma semana e passei pelas experiências descritas com a excessão da carne vermelha(não comi), mas, quanto a fadiga, cefaléia, dispnéia e taquicardia e alguns dsturbios do sono foram inerentes à minha força de vontade ou condição física. . Grande abraço.

  3. Samira 15 Fevereiro, 2017 at 15:42 Responder

    boa tarde, gostei muito do texto, parabéns.

    aproveito para compartilhar que farei a trilha Salcantay em maio deste ano, estou um pouco preocupada com a altitude, já que chegarei em cusco no dia 23 e já no dia 24 saio para trilha. Serão 5 dias, vou seguir todas as suas dicas! espero que dê tudo certo, é a realização de um sonho! obrigada.

  4. Rosana 20 Maio, 2017 at 11:03 Responder

    Estive em Cusco e nos primeiros dois dias passei muito mal bom enjoo e muita dor de cabeça. Curei o mal estar tomando de oito em oito horas Plasil e Neosaldina. Aí foi só curtir a viagem com passeios maravilhosos.

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