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Bento Rodrigues: joia soterrada

Hoje vamos falar de um distrito histórico da cidade de Mariana, Bento Rodrigues. Para o antigo pouso de tropeiros, localizado na Estrada Real, Minas Gerais, ninguém mais pode planejar viajar. Bilhões de toneladas de rejeitos, por isso entendam-se lama, resíduos tóxicos e tudo quanto sobra do processo de retirada de minério soterraram o lugarejo onde viviam pouco mais de 600 pessoas. Duas barragens se romperam ontem por volta das 16h, num claro crime ambiental. Bento Rodrigues era um brinco de belezura, como mostra a reportagem feita por Thatiana Zacarias Freitas, do programa Top Notícias, em abril deste ano. O Top Notícias é da Top Cultura, afiliada da TV Cultura, de São Paulo. Preferimos mostrar só o vídeo. Como ficou o lugar você confere no noticiário nacional.

Hoje não tem frango com quiabo!

Assista ao vídeo primeiro!

https://www.youtube.com/watch?v=BoXpQiMJj1E

Fico me perguntando onde estão essas pessoas que deram as entrevistas, falando com tanto carinho dos atrativos turísticos do distrito de arquitetura colonial. Duas igrejas para visitação, das quais sobrou uma torre, segundo o notíciário. É a da Igreja de São Bento, construída  no século 18. Uma cachoeira boa para banho, ruínas de uma ponte de pedra que podiam ser conferidas após uma caminhada de 20 minutos.

Bento Rodrigues tinha restaurante de comida típica mineira e uma coxinha que era famosa na região e a geléia de pimenta biquinho, que já estava sendo preparada para exportação. A antiga parada para descanso dos tropeiros não existe mais. As igrejinhas já não badalam seus sinos, e do restaurante da Sandra Dometirdes Quintão hoje não vai sair nenhum frango com quiabo, nenhum feijão tropeiro, nenhum angu com couve batidinha. Não vai dar pra comprar coxinha nem saborear o seu pé-de-moleque. Aliás, onde estará Sandra?

A fábrica de geléia de pimenta-biquinho sabe-se lá como ficou. O projeto que levantou a auto-estima da região está sem chão, sem teto. Sete mulheres e um homem, segundo a reportagem da Thatiana, resolveram reativar a associação de hortigranjeiros, a Aobero, e escolheram a pimenta-biquinho como âncora. Dava tanta pimenta que sobrou para a geléia, a Bikinho, assim mesmo com K. Hoje, a Keila Vardeli Fialho, que contou esta história pra Thatiana, não vai pra plantação.

Fico imaginando em que varanda as "amigas" vão se reunir para falar da vida, para contar segredos, revelar "como a vida está passando". Fico imaginando se essas pessoas se salvaram, quantas se salvaram, o que será de suas vidas agora.

Eu conversei com a Thatiana e ela me contou que, quando fez a reportagem, tinha duas semanas de trabalho na TV. Estudante ainda de jornalismo, Thatiana revelou que foi super bem recebida por todo mundo. "Eles me ajudaram, tiveram paciência, são uns amores de pessoas", relatou ela. A repórter foi recebida nas casas, nos quintais, assim bem mineiramente.

Olha o que a Thatiana fala

"Lá era um lugar bem pequeno, rodeado pela natureza. A gente teve uma sensação agradável, gostosa, de paz e tranquilidade. Ao saber da tragédia, fiquei assustada, as imagens são muito fortes e impactantes. Dá uma tristeza imensa, especialmente em ver o desespero no rosto das pessoas. O que eu achei muito bonito foi que o pessoal da cidade, eu sou de Mariana mesmo, assim que ficou sabendo do ocorrido, já começou a se mobilizar para ajudar as pessoas. Rapidamente, as doações começaram a ser feitas. As repúblicas da cidade se uniram e arrecadaram várias coisas, e o tempo todo você via estudantes andando com caixas cheia de coisas para os locais de coleta"

Resumo da tragédia

O crime ambiental aconteceu ontem no final da tarde. As barragens do Fundão e Santarém se romperam, arrastando numa avalanche tudo que estava pela frente ao longo de 30 quilômetros. Pessoas, carros, casas, tudo. Não se saberá o número certo de mortos tão cedo. Contam-se 24, por enquanto, mas quando você ler este post o número certamente terá mudado.

Pelo que se sabe até agora, laudo técnico de 2013 encomendado pelo Ministério Público concluiu que a área estava instável. Isso foi feito quando a mineradora Samarco pediu a revalidação da licença de operação da barragem. Eles ainda queriam colocar mais 30% de rejeitos na Barragem do Fundão, da Mina do Germano, quando o negócio todo já era uma tragédia anunciada.

Uma comunidade que era feliz em sua simplicidade e mineiridade foi arrasada e nós, que gostamos de conhecer e contar histórias desse povo delicioso, que adoramos escrever sobre turismo comunitário, pois ele é uma fonte de renda e alternativa econômica para muita gente, estamos desolados! E essa tragédia não tem causas naturais!

 

 

 

 

 

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