Bento Rodrigues: dona de bar famoso lembra tragédia

A Sandra Domertides Quintão, dona do Bar da Sandra, conta ao Planejo Viajar os momentos de dor e desespero que passou para sair de Bento Rodrigues, sub-distrito de Mariana, completamente destruído na última quinta-feira (dia 5 de novembro) pelo rompimento de duas barragens da Mineradora Samarco, pertencente à multinacional brasileira Vale S/A e à anglo-australiana BHP Billinton, a maior mineradora do mundo. A dona do restaurante de comida mineira e de uma pousada mantida em um casarão centenário, que tinha sido todo reformado e sumiu sob 15 metros de lama, conseguiu salvar várias pessoas da morte. Ela aparece na reportagem abaixo feita por Thatiana Zacarias Freitas, do programa Top Notícias, em abril deste ano. O Top Notícias é da Top Cultura, afiliada da TV Cultura, de São Paulo.

Refúgio da Estrada Real, agora sob oceano de lama

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O bar, restaurante e pousada da Sandra, que tinha acabado de pintar o imóvel, ao lado da Capela de São Bento

 

Depois de ver e também compartilhar um vídeo que circulou nas primeiras horas de sexta-feira (dia 7), fiz um post enquanto me perguntava onde estariam aquelas pessoas que deram entrevista, uma delas a Sandra Domertides Quintão, dona do Bar da Sandra. Hoje eu falei com ela e seu relato está abaixo.

Fui a primeira jornalista a quem ela contou as terríveis horas que passou tentando se salvar e salvar o maior número possível de pessoas, no maior desastre ambiental do País. Ela está preferindo se manter mais afastada, enquanto tenta assimilar tudo que aconteceu e pensa no que fará.

Falei pelo telefone, ela estava com a voz embargada, chorou, preocupada com o que vai fazer agora da vida e também com todas as outras pessoas que estão passando pela mesma situação. Ela me disse que todas as pessoas que aparecem na reportagem se salvaram. A pergunta é: como vão reerguer suas vidas? Quem paga o que perderam?

A Sandra herdou do pai o tropeiro Olívio Fonseca Quintão, o casarão de dois andares, que tinha 32 cômodos. O tempo passou e o imóvel já era bem diferente. Sandra o tinha reformado e transformado em bar, restaurante e pousada. O bar tinha sido pintado há pouco tempo. "Estava de cara nova", contou ela.

A pousada tinha três quartos e dois banheiros onde recebia os turistas que percorrem a Estrada Real. Gente que chegava a pé, a cavalo, de jipe, carro comum, de todo jeito. Um deles trouxe para ela uma foto do casarão, como era antigamente. "Foi tudo embora na lama, tanta história, história que não acaba mais e que vai ser difícil de esquecer", lamentou.

Sandra lembra já ter recebido 20 cavaleiros que estavam fazendo a rota. "Eu e minha irmã, que mora em Santa Rita, éramos chamadas de os 'anjos da Estrada Real', pois sempre tínhamos um jeito de acomodar todo mundo", diz Sandra. Todas as pessoas, relata, adoravam "minha cocada, minha coxinha, meu pé de moleque".  Na cozinha, com três fogões à lenha, os clientes se serviam à vontade, tinham direito a dois tipos de carne. Comida mineira da boa.

"Inclusive o pessoal da Samarco ia demais no meu bar. Minha comida e meus doces são famosos lá", diz ela, acrescentando não querer se indispor com ninguém: "Tudo minha família, tudo meus irmãos".

Patrimônio histórico soterrado

O Bar da Sandra ficava ao lado da Capela de São Bento, do século 18, que foi simplesmente riscada do mapa. Tudo está sob 15 metros de lama e rejeitos.

No site da Prefeitura de Mariana, no item Distritos, Santa Rita Durão, Alimentação ainda se lê:

"Bar da Sandra
Em Bento Rodrigues, ao lado da Capela de São Bento, aberto diariamente de 8 às 22 horas. Mas se você tem tempo, deixe para fazer o seu pedido pessoalmente e enquanto aguarda, pode curtir um bom papo com os moradores ou visitar os atrativos turísticos locais."

No mesmo site, a descrição: "Bento Rodrigues, subdistrito que foi importante centro de mineração do século 18. A Estrada Real atravessa o centro urbano, ligando-o à Santa Rita Durão e a Camargos". A Festa de São Bento, informa a página, "ocorre" sempre no último final de semana de julho.

 

 O dia da tragédia, segundo Sandra Quintão

"Eu já tinha feito três tabuleiros de coxinha. Vendo 200 coxinhas todo domingo. Na hora da tragédia, eu estava conversando com alguns amigos, quando uma menina, a Paula, passou numa motinha avisando todo mundo que era para sair porque vinha um mar de lama. Peguei meu carro, uma Strada com cabine estendida, dei a chave para o Jefferson, e colocamos eu e minha irmã, mais de cinco pessoas dentro. Falei pra ele sair correndo (entre as pessoas estavam a filha de Sandra, Ana Amélia, de dois anos e oito meses, a dona Geralda, que não caminha mais, com cerca de 70 anos, a dona Holanda. Sandra não conseguiu se lembrar de outros nomes).

De uma hora para outra ficamos sem nada. Tentei voltar em casa para pegar meus documentos, mas não houve mais tempo. Saímos eu e minha irmã, correndo dali. Entramos no carro de um amigo, até chegar na Igreja das Mercês, junto ao no cemitério, mais no alto. Foi o tempo de ver minha casa flutuando na água, indo embora.

Alguém falou que poderia haver outro rompimento, então eu e mais umas 20 a 30 pessoas resolvemos sair mato adentro. Pegamos duas tábuas e íamos pisando nelas sobre a lama de um pequeno córrego, passando as crianças de mão em mão, até chegar na estrada de Santa Rita.

O Bento (como os moradores chamam carinhosamente Bento Rodrigues)  era tudo para mim, eu adorava aquele lugar onde trabalhei 15 anos, de segunda a segunda. Fazia vários eventos, o último foi um torneio de truco. Comprei até os troféus. Não sei o que vou fazer agora. Foi tudo muito agressivo, mas não quero culpar ninguém."

Sandra Domertides Quintão, 44 anos, dona do Bar da Sandra

 Retrato do crime

Até agora são contabilizados, segundo o coordenador da Defesa Civil de Mariana, Welbert Stopa, 22 desaparecidos (11 da mineradora e 11 de Bento), e quatro mortos, entre eles crianças. O blog está atualizando os números dia a dia. A família de Sandra foi toda salva. Toda a cidade de Mariana e região está mobilizada no atendimento aos cerca de 500 resgatados e no rastreamento dos desaparecidos.

A rede hoteleira de Mariana, município histórico com mais de 300 anos, recebe grande parte destas pessoas. A grande pergunta entre os atingidos, gente que vivia da mineração, do turismo e da agricultura é se o subdistrito, que devia ter a idade aproximada de Mariana, será reconstruído de alguma forma. Pode até ser, mas as vidas dos atingidos nunca mais serão as mesmas.

3 comentários

  1. Elio 18 novembro, 2015 at 13:22 Responder

    A foto da reportagem não é da Capela de São Bento. A foto da reportagem é da Capela das Mercês, que não foi atingida pelo desastre.

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