A tragédia e o turismo em Mariana

Hotéis de Mariana mudaram totalmente a rotina com o recebimento dos desabrigados da tragédia que se abateu sobre o subdistrito de Bento Rodrigues e região, depois do rompimento de duas barragens da Samarco, controlada pela Vale e BHP. No Hotel Providência (foto acima), tradicional na cidade, estão abrigadas 130 pessoas que perderam tudo com o soterramento total de suas casas, criações, plantações e negócios. Por dia, são servidas 180 refeições (café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar). Para refeições, o hotel tem atendido a hóspedes/desabrigados de outros meios de hospedagem que não oferecem refeição, disse o gerente Antônio Diniz ao Planejo Viajar. Toda a rede hoteleira de Mariana está envolvida no amparo aos desabrigados, despesa que deverá ser paga pela mineradora.

"Parecendo um hospital"

O gerente do Hotel Providência, Antônio Diniz, disse que foi preciso cancelar as reservas de grupos. As excursões pedagógicas, segundo ele, são o forte do Providência. As reservas individuais que já foram feitas são mantidas, mas em caso de cancelamento pelos hóspedes, não lhes é cobrada nenhuma taxa. Estas vagas que estão sendo canceladas pelos hóspedes são congeladas para o recebimento de novos desabrigados, explicou.

O hotel, localizado na Rua Dom Silvério, nº 233, oferta no total 250 leitos. Os hóspedes que preferiram manter as reservas, revela o gerente do Providência, estão sendo muito solidários. A maioria já chega com doações para os moradores.

A rotina do hotel, construído em estilo colonial e localizado no Centro Histórico, a dois quilômetros da Estação Ferroviária de Mariana, foi totalmente modificada. "Estamos parecendo um hospital, tivemos que estabelecer um horário de visitação, das 9h às 11h30 e das 14h às 18h30". De acordo com Antônio Diniz, os desabrigados são identificados por crachás.

Ele informou ainda que o compromisso firmado com a Samarco é até dia 19 de novembro, mas acha que deverá ser estendido. Por enquanto não foi negociado ainda um valor ou pagamento com a mineradora. "Somos parceiros há muito tempo, temos certeza que a Samarco honrará o pagamento", garantiu Antônio Diniz.

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Pousada do Chafariz

Já na Pousada do Chafariz, situada na Rua Cônego Rêgo, 149, dos 20 quartos existentes, 13 estão ocupados por 38 desabrigados, uma família em cada acomodação. De acordo com a gerente Ludmila Eufrásio Alves, houve apenas dois cancelamentos de hóspedes e a operação da pousada está normal, com a diferença da visitação dos parentes das vítimas ali hospedadas. Só que lá não foi necessário estabelecer um horário, como no Providênca. Ela também afirmou que não sabe até quando a pousada volta à rotina.

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Pousada Gamarano

Preocupação

Na Gamarano, com capacidade para 22 a 24 pessoas em nove apartamentos, estão hospedadas 12 pessoas atingidas, em quatro apartamentos. Ela está localizada na Colina de São Pedro, com uma bela vista do Centro Histórico, piso de madeira e móveis em estilo rococó. De acordo com o proprietário José Geraldo Gamarano, conhecido como Ladim, houve seis cancelamentos de reservas. Na pousada é servido apenas o café da manhã.

"Recebemos todos os tipos de hóspedes. Se algum deles não entender a situação, paciência, temos que atender os desabrigados", disse Ladim, garantindo que a Samarco tem dado assistência com psicólogos, médicos e refeições.

O proprietário demonstrou preocupação com os prejuízos ao turismo de Mariana. "É preciso lembrar que o Centro Histórico de Mariana não foi afetado", alertou.

Com 312 anos, contados desde a fundação do arraial Ribeirão do Carmo, em 1703, Mariana foi a primeira capital de Minas Gerais, crescendo na esteira da mineração do ouro. No Centro Histórico há várias igrejas e o famoso Chafariz São Francisco. Nos distritos, do qual Bento Rodrigues, Camargos e Paracatu de Baixo foram os mais atingidos pela lama, ainda é possível ver como era a antiga vida dos arraiais.

Outras pousadas e hotéis que hospedam desabrigados da tragédia são Getsêmani, Avenida Palace, Águas Claras, Rainha dos Anjos, Hotel Minas, Central, Contos de Minas, Hotel das Gerais, Miller, Faísca, Tipografia e Serrinha.

Resumo da tragédia

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No dia 5 de novembro, no final da tarde, duas barragens com rejeitos de mineração, Santarém e Fundão, operadas pela Mineradora Samarco se romperam, soterrando totalmente o subdistrito de Mariana, Bento Ribeiro (foto acima). O estouro das barragens atingiu também os distritos de Paracatu de Baixo, Camargos,Ponte do Gama e a cidade de Barra Longa.

Por causa da localização de trinca em uma terceira barragem, da Mina Germano, os escombros de Bento Rodrigues foram totalmente interditados e a população não pode mais ir até lá em busca de pertences, como estava sendo permitido.

Até agora, quinta-feira, dia 12, às 10h, segundo os números oficiais divulgados no site da prefeitura de Mariana, foram confirmadas oito mortes, das quais três corpos ainda não foram identificados, e 20 pessoas desaparecidas (11 da Samarco e nove moradores).

Ao todo, foram liberados 62 milhões de metros cúbicos de lama (o equivalente a 62 bilhões de litros de água) misturada a resíduos tóxicos utilizados na lavagem do minério. A lama com os rejeitos está chegando ao litoral capixaba, no que está sendo considerado o maior desastre/crime sócio-ambiental da história brasileira, com repercussões econômicas gravíssimas, principalmente para os mais de 600 moradores destes distritos, que perderam absolutamente tudo.

O prefeito de Mariana, Duarte Júnior, estima em R$ 100 milhões os prejuízos para o município. Os prejuízos ambientais são incalculáveis para a bacia do Rio Doce. A lama está descendo ao longo dos 879 quilômetros, desde sua nascente em Minas, até Regência, no Espírito Santo. Não é como se fosse um tsunâmi mais. Além da calha do rio, essa lama vai se espalhando pelas margens, entupindo nascentes, mudando totalmente o curso d´água, invadindo lagoas marginais, onde nascem os peixes e acabando com toda a ictiofauna.

 

 

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