Palpitando

Uma “viagem” sobre a impessoalidade do pau de selfie

Esse texto de reflexão foi enviado pela leitora e amiga, Catharina Lincoln. Obrigada pela contribuição Cath!

 

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Mundo moderno: as pessoas passaram a viajar mais sozinhas e isso é maravilhoso. Permitir-se lidar com sua individualidade ao desbravar o mundo é um ato de ousadia. Mas viajar sozinho não significa ficar sempre sozinho. Viajar é humanizar.

O contato com outras culturas, com comidas diferentes, com locais estonteantes não tem significado se não é compartilhado. Você pode compartilhar na viagem ou depois dela (caso faça uma viagem sabática), mas buscará algum meio de registrar a experiência para compartilhá-la (durante ou depois). E não estou falando em compartilhar um novo status nas redes sociais. Compartilhar significa conhecer e trocar histórias e, para isso, não tem jeito: você precisa ter contato HUMANO. Conversar, ouvir, contar. É por isso que tenho tanto estranhamento com o fenômeno “pau de selfie”.

 

Um pouco sobre fotografia…

selfieEsclareço que o problema não é a selfie em si. Selfies já são um realidade da concepção moderna de fotografia, que se popularizou com o amplo acesso à celulares multifunção. Selfies podem ser bem úteis quando você quer encaixar todo mundo na foto (vide a avalanche de selfies natalinas da famílias completinhas no sofá de casa! Maravilha!).

Ademais, experienciamos sozinhos momentos dignos de registrar e vamos combinar que a selfie ajuda muito. E, ainda, acredito que alguns fotógrafos gostam de se ver em suas fotos, mesmo que por curiosidade. A selfie acaba por unir “o sujeito e seu objeto”.

O que ainda me deixa “curiosa” é essa dispersão dos momentos singulares. Fotografamos de forma rotineira: acorda, selfie; come; selfie; malha, selfie; bebe, selfie. E foto e rotina não combinam. E quando a selfie vem com postagem nas redes sociais a vida passa, a comida esfria, uma possível paquera desiste pois estamos com os olhos presos ao celular, imersos na matrix.

Acabamos mais concentrados em dar satisfação ao mundo do que em viver. A foto, mesmo quando reflete uma imagem do cotidiano, é a guardiã da singularidade. A foto, antes de tudo, é algo especial em forma de imagem.

Até pouco tempo, só existiam no mercado filmes para 12, 24 ou 36 poses (quem abriu um sorriso?). Era necessário escolher o melhor dos momentos para tirar uma boa foto e cada uma guardava a singular essência do momento vivenciado. Quando o filme queimava, ficávamos tristes pois perdíamos uma chance particular. Hoje, não tem feito muita diferença pois é tudo muito igual.

 

Voltando para o tema viagem…

A questão é que tirar foto na viagem pode ser uma oportunidade para conhecer novas pessoas, novos lugares e novas histórias de vida. Me explico: quem nunca começou um bom papo com a famosa frase “você poderia tirar uma foto pra mim?”.

Aquele indivíduo desconhecido pode agregar algo especial à sua experiência de viagem, você pode ganhar alguma informação que vai ser incrível ou até conseguir uma vaga em alguma excursão bacana (todos esses já foram exemplo reais, inclusive da escritora desse blog ). Tudo isso só por optar pelo simples gesto de compartilhar. E como já disse, a palavra compartilhar não faz sentido de um, é preciso, no mínimo, de dois! “Humanize”!

O interessante é que já existe (ou existia) uma reciprocidade inerente na ajuda ao fotografar. Basta você andar sozinho com a câmera na mão que pessoas vão, espontaneamente, se oferecer para tirar uma foto para você. Elas o fazem pois consciente ou inconscientemente sabem que você está vivendo um momento especial. Por isso são prestativas ao registrar o momento, com você na foto e, obviamente, com o enquadramento muito melhor, coisa que, por mais comprido que seja o tal do pau de selfie, ele não garante.

Eu ainda prefiro a pessoalidade e a singularidade das fotos. Uma viagem especial merece boas fotos, mas boas fotos não são garantidas por uma haste de metal: elas dependem de boas conversas, risadas, emoções, experiências compartilhadas. Por um mundo com menos paus de selfie e mais “você poderia tirar uma foto pra mim?”!

 

 

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2 comentários em “Uma “viagem” sobre a impessoalidade do pau de selfie

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