O que vi na Venezuela e porque pretendo voltar

Meu mapa da América do Sul está quase completo. "Conquistei" mais um país: a Venezuela. Quem me conhece, ou conhece o Planejo Viajar um pouquinho, sabe que eu tenho uma quedinha pela América Latina. Mas eu nunca tinha ido à Venezuela.

Já tinha planejado mil vezes, mas sempre surgia alguma passagem em promoção para outro lugar e eu acabava adiando os planos. Até que a situação lá começou a ficar cada vez mais complicada, escassez de alimentos, índices recordes de violência... e eu sem conhecer a Venezuela.

Até que eu consegui este trabalho. Hoje eu trabalho no escritório da EMBRATUR para a divulgação do Brasil na América do Sul. É muito bacana, e eu estou viajando bastante pela América do Sul para trazer mais e mais dicas para vocês. Em outro momento eu conto do meu trabalho novo com calma, e de como é voltar a trabalhar fixo depois do ano sabático e de uma temporada como freelancer. Hoje eu quero dizer como eu cheguei à Venezuela.

Uma viagem a trabalho, não dá para negar. Ou talvez desse, mas eu não neguei.

Mas, afinal, porque eu fui e o que vi na Venezuela?

Ana Beatriz em Caracas

Cerro Ávila, a montanha sagrada de Caracas ao fundo.

Quando eu estava pensando sobre ir ou não – até porque eu teria uma série de motivos pessoais e profissionais para me recusar a ir – eu só escutei histórias bizarras. As pessoas diziam: "Mas você vai sozinha? Eu peguei um taxi lá uma vez que fui de férias e foi super estranho, muito perigoso".

Ou, como meu irmão disse: "A minha empresa tem sede lá, mas todos os funcionários estão desobrigados a visitar o país, é o único país que ninguém precisa ir". Houve até comentários mais simples tipo: "Leva papel higiênico e água mineral, porque lá não tem".

E eu pensei mil vezes em não ir. E eu senti medo, bastante medo.

Mas não conseguia parar de pensar que eu nunca tinha ido à Venezuela. E que eu queria ver como era o sotaque do espanhol deles e que eu queria sentir como é estar lá. E conhecer como são as pessoas, e quem sabe provar e gostar da comida típica.

Eu também queria ver tudo aquilo com meus próprios olhos. Tirar minhas próprias conclusões. Eu queria dizer, daqui a 20 anos, que eu fui para a Venezuela quando estava nesta situação e contar minha experiência. E por isso eu fui. Veja o que encontrei.

A reserva do hotel em Caracas

Uma amiga comentou que uma vez ficou num hotel cinco estrelas, e que tinha saído por 25 dólares, pagando pelo câmbio negro. Mas isso já ficou no passado. Veja aqui onde ficar em Caracas.

Entrei em contato com o mesmo hotel e eles disseram que as tarifas estavam sendo praticadas em dólar. Isso porque se cobrarem em bolívares, quando eles tentam repatriar as despesas, o governo aplica a taxa de câmbio que quer e a empresa perde milhões e milhões de dólares nesta transação. Inviável.

Acabei tendo que contar com a ajuda da pessoa com quem eu me reuniria lá para ir ao hotel diretamente, fazer a reserva e pagar a conta com seu cartão de crédito. "Pagar a conta também? Porque?"

A hiperinflação

Mão segura notas de moeda venezuelana

Menos de 20 dólares! Este tanto de notas, só para passar o dia!

A conta do meu hotel ficou em Bs 290.000 (bolivares), mais ou menos 450 dólares. Agora, imagina trocar meus dólares numa casa de câmbio, e pagar 290.000 sendo que a maior nota é de Bs 100. Seriam 2.900 notas de cem, e eu provavelmente precisaria de uma mala para carregar tanto dinheiro.

No dia que eu cheguei, troquei cerca de 100 dólares para as primeiras despesas de alimentação e transporte, e recebi um envelope, cheio de dinheiro!

Senti-me uma mafiosa, sei lá, metida em alguma operação ilegal tendo que carregar tanto dinheiro vivo assim. Em notas, porque em valor, era quase nada.

E, há apenas quatro anos, o governo cortou os últimos três zeros do dinheiro. Ou seja, tudo que custava 290.000 passou a custar 290. Bem mais fácil de pagar com notas de 100, 50, 20, né?

Só que assim tão rápido a inflação já fez com os que preços subissem tanto, que novamente as coisas custam vários milhares de bolívares, e as pessoa têem que, novamente, andar com bolos de dinheiro.

A proporção dos valores a que nós, brasileiros, estamos acostumados, não faz o menor sentido na Venezuela.

Por exemplo, uma corrida de táxi de mais ou menos 15 minutos custa 1000 bolívares, ou uns 5 reais. Já encher o tanque do carro, custa 300 bolívares. Ou seja, é totalmente razoável pagar com notas de 100.

Uma caixa de leite no mercado pode custar 30 bolívares, e até aí tudo bem as notas serem de 100, 50.

Mas um almoço na rua em um restaurante médio, custa em torno de 5.000 bolívares, ou uns 30 reais.

Mas peraí, porque esta discrepância nos preços?

A escassez de produtos

Teoricamente a caixa de leite custa 30 bolívares no supermercado. Na prática, quase ninguém consegue comprar caixas de leite por 30 bolívares. Isso porque o governo fixa o preço em 30 bolívares, mas quase nenhuma empresa consegue produzir por este preço, então elas não o fazem e os produtos não chegam nas prateleiras.

Aí, começaram a surgir os intermediadores, gente que consegue alguns produtos e os vende irregularmente em caminhões na rua, mas aí em vez dos 30 bolívares, cobram 300, ou 500, ou 1000.

Lógico que quando tem a tal da caixa de leite por 30 bolívares no mercado a demanda é grande. Aí foi que o governo criou os limites de compra por pessoa, e as datas para comprar de acordo com o documento de identidade.

Tipo, se sua carteira de identidade termina com 1 e 2, seu dia de fazer compras é segunda-feira, e assim por diante. E ainda assim, formam-se as filas gigantes, e quem está no final da fila nem sabe se vai conseguir comprar alguma coisa.

 

A escassez dos produtos pros turistas

Para mim, enquanto turista de negócios em Caracas, a escassez dos produtos foi sentida principalmente nos restaurantes. Normal era pedir algo do cardápio e o garçom responder: "Não temos isso, porque não conseguimos comprar o queijo"; "Não temos nada frito, porque não conseguimos comprar o óleo"; "Substituímos o risotto por arroz cremoso, porque não encontramos arroz de risotto. Mas é bem gostoso, pode provar!".

O papel higiênico estava disponível normalmente no meu hotel e garrafas de água também. Só não sei dizer se era mineral. Na loja de conveniências próxima ao hotel eu não encontrei água para comprar. Quando acabava a água do quarto do hotel, ou eu pedia um suco – feito com sabe-se lá que água – ou tomava um Gatorade ou algo parecido que eu encontrasse na loja de conveniência.

E parece que assim vai vivendo o venezuelano: substituindo coisas. Risotto por arroz cremoso, água mineral por suco ou por água de coco. O que for possível encontrar.

E para pegar táxi?

Caracas

Taxis em Caracas - a única foto que eu tomei de dentro de um carro!

Um dos meus principais medos era o de pegar táxis na rua. Nestas minhas viagens a trabalho, de vez em quando eu tenho que pegar uns táxis super estranhos. Motoristas grosseiros, que não conhecem o lugar, se perdem, e você nunca sabe se ele está te levando para um lugar diferente porque quer te fazer algum mal, ou por falta de conhecimento mesmo. E na Venezuela eu estava morrendo de medo disso.

Cogitei contratar um motorista particular para me levar às reuniões, ainda mais depois que mandaram um carro blindado para me buscar no aeroporto. Mas o mais barato que encontrei me cobrava o equivalente a 25 reais por hora, o dia inteiro durante uma semana. Faz as contas aí... inviável. Fora do meu orçamento.

Então adotei uma tática. Sempre ao final de uma reunião, eu pedia à pessoa que me recebia para me ajudar a tomar um táxi. E as pessoas na Venezuela são muito prestativas!

Elas sempre me acompanhavam até um ponto e conversavam com o taxista por mim, ou ligavam para um radio-táxi e continuavam comigo até o veículo chegar.

Uma senhora me acompanhou até o táxi e até disse algo do tipo "Me liga para avisar que chegou, ok?", o que claramente eu não ia fazer porque nem tinha o telefone dela, mas só para passar ao motorista a impressão de que havia alguém preocupado por mim esperando notícias.

Gracias Venezuela!!!

Desculpa gente, não deu para tirar muita foto da viagem a Caracas nem para passear em lugar nenhum e trazer as dicas, por falta de tempo, mas principalmente por questões de segurança.

Recebi fortes recomendações para nunca andar com o celular na rua, ainda menos com a típica pose "Eu não sou daqui" de quem está concentrado tirando uma foto de um monumento. Até dentro do carro me disseram que não tirasse fotos com o celular, porque há motoqueiros que quebram o vidro do carro para roubar os celulares. Não vi nada disso acontecendo, mas também não quis pagar para ver.

 

Caracas é bonita! Mas está meio abandonada...

Cruzamento no bairro Altamira em Caracas

Cruzamento no bairro Altamira, com o Cerro Ávila ao fundo: montanha é considerada sagrada (Foto: Creative Commons)

Achei Caracas muito bonita, apesar de parecer um pouco abandonada. Há prédios altos e modernos, mas falta manutenção. Hotéis grandes de redes importantes estão precisando de reparos nas fachadas.

O que mais me chamou a atenção foi o Cerro Ávila. Uma montanha que "protege" a cidade, considerada sagrada para eles. Todos falavam dela e realmente é um charme, visível de quase todos os pontos da cidade.

A maioria das minhas reuniões foi em Chacao e La Castellana, alguns dos bairros mais ricos e menos perigosos de Caracas. Em alguns momentos, fiz pequenas caminhadas, sempre acompanhada, para lanchar ou almoçar.

E dá para fazer compras?

Imagina comprar algo na Venezuela com esta dificuldade. Eu sempre ouvi falar do café e do chocolate venezuelanos e queria trazer um pouco para casa.

No shopping próximo ao meu hotel não encontrei e, a todos que eu perguntava, diziam que até conseguiria chocolate, mas que o café estava bem difícil.

Já quase me dando por vencida, resolvi tentar no free shop do aeroporto, e os preços estavam absurdos. Sério, fora da realidade.

Até que lá no finalzinho, já como quem desistiu de comprar no free shop, encontrei uma lojinha despretensiosa, que tinha preços mais condizentes com o planeta Terra.

Não foi barato, mas pelo menos deu para comprar um quilo de café, e algumas barrinhas de chocolate. E valeu totalmente a pena! Muito gostoso!

O que eu vi na Venezuela?

Deque de madeira entrando para o mar em Los Roques, Venezuela

Los Roques é um dos meus motivos para voltar à Venezuela (Foto: Creative Commons)

Vi uma cidade (Caracas) bem linda, e isso que eu ainda nem fui a Los Roques, ou Islas Margaritas, ou Monte Roraima. Caracas é bonita, arborizada, e se parece um pouco com algumas cidades brasileiras.

Vi um povo fantástico, super descontraído e informal, bem parecido com o brasileiro. Às vezes eu sinto um pouco de dificuldade com as formalidades aqui dos países andinos (moro no Peru e, por trabalho, também viajo para Bolívia, Colômbia, etc.).

Na Venezuela as pessoas gritam (hahaha, sei lá, eu acho que não tem o menor problema gritar), fazem brincadeiras umas com as outras na rua, se tratam como melhores amigos mesmo tendo acabado de se conhecer. Senti-me bem, senti-me em casa.

Eu vi um país que continua existindo, continua comprando, continua vendendo. Não é o palco de uma guerra civil onde todos estão sem ação, como podemos imaginar: é um país normal, latino-americano, lutando com suas contradições e se ajeitando como pode. Soa familiar, né? Pois é...

Eu vi um lugar para o qual eu regressaria muito mais tranquila, inclusive para visitar Los Roques, que é o meu sonho. Lógico, tomando uma série de cuidados e talvez sendo menos independente do que eu costumo ser em minhas viagens. Mas sim, eu voltaria. Ou melhor, eu voltarei.

7 comentários

  1. Yosha 14 dezembro, 2016 at 04:26 Responder

    Tenho essa mesma curiosidade de conhecer a Venezuela, e o(s) mesmo(s) receio(s), especialmente com táxi… uma vez li uma recomendação sobre se hospedar no hotel do aeroporto, e aí poder seguir pra outros destinos da Venezuela sem necessariamente ter de sair do aeroporto e lidar com o caos de Caracas, o que pareceu uma dica boa também pra quem quer conhecer Venezuela sem encarar a capital!
    Fiquei bem impressionada com esse relato, especialmente a parte do restaurante e o que os garçons costumavam dizer (e não poder tirar foto nem dentro de um carro)… bateu uma tristeza pela situação. :/ Embora seja bom ver que eles conseguem se virar na criatividade. E você ainda lidou bem pra caramba com o caos todo.
    Ótimo post, como sempre! Ansiosa pelos seus relatos de Los Roques e Monte Roraima um dia!

    • Ana Beatriz 12 Janeiro, 2017 at 09:12 Responder

      oi Yosha! Sim, dá um pouco de pena. E pelo que estou acompanhando a coisa está piorando, o dólar já vale o dobro de quando fui e a hiperinflação segue galopante.

      Este ano vou tentar ir a Los Roques! Aí trago o relato!

      Abraço!

  2. Jhony 10 Fevereiro, 2017 at 14:44 Responder

    Eu vi para conhecer uma pessoa, me disseram que era louco em ir em uma países que passa por uma situação econômica muito difícil , mas pra quem é louco isso não é problema kkkk estou aqui é curtindo muito !!!

  3. Roxy 16 Fevereiro, 2017 at 21:41 Responder

    Que post mais sensível sobre a Venezuela. Acho muito legal ver os relatos sem ressaltar muito os estereótipos e ver que o melhor é enfrentar e ver por si mesma o país. Tenho um certo trauma de já ter sido roubada na Bolívia, mas fui mochileira de primeira viagem. Depois ainda fui para a Europa e fui à Colômbia, lugar que me apaixonei e voltarei em breve. A Venezuela é logo ao lado e estou querendo me esticar para lá também. 🙂

    • Ana Beatriz 19 Fevereiro, 2017 at 16:19 Responder

      Sim, Roxy, eu também fui bastante apreensiva. Já fui roubada em viagens também, e nos dois casos decidi para mim que eu não deixaria o medo me dominar.

      Agradeço por ter conhecido o país, e sei que terei história para contar pro resto da vida!

      Beijo!

  4. Danilo Wallid 5 Março, 2017 at 17:43 Responder

    Obrigado pelo relato! Me serviu de motivação… Estou indo mochilar na Venezuela no dia 15 de março e vou rodar o país por 1 mês e meio… Na volta conto o que vi por onde eu passei… 😉

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